sexta-feira, 12 de junho de 2015

Latão Banhado a Ouro (de 24 quilates)


“Hypocrite: The man who murdered his parents, and then pleaded for mercy on the grounds that he was an orphan.” - Abraham Lincoln



Pois é, coitadinho do órfão. Oceanos de lágrimas por ele.  Por ele e por todas as pessoas que enfiarem a carapuça relativamente ao assunto que abordarei neste tema.
Ora, pelos vistos, parece que há idade limite para se ser solteiro, desprovido de prole, não possuir viatura própria e viver com os pais. Parece que existe um género de contra-relógio, para cada uma destas metas. 
Viatura, convém ter logo aos 18 (a primeira de várias), é peremptório vagar a casa dos pais antes dos 25,  ai da criatura que não tenha encontrado a cara-metade antes dos 30 (idade em que já deve estar a subir ao altar  e com a chave da casa nova no bolso) e, cruzes, extinga-se a raça humana, se não houver descendência antes dos 35.
Quem quiser seguir as “regras”, faça favor, cada um sabe de si, farto-me de dizer, haja liberdade, façam o que vos der na real gana, a vida é vossa, se são felizes seguindo o guião, fantástico. Não tenho absolutamente nada contra, sorte de quem conseguir ter a felicidade de conseguir atingir todas estas metas, independentemente da idade, se for essa a sua vontade e, e chegamos agora ao busílis da questão, se tiver CAPACIDADE para tal. Volto a repetir: CAPACIDADE. E, por CAPACIDADE (o CAPS é essencial, lamento), entenda-se autonomia e acima de tudo uma conta bancária e estabilidade que permitam viver o belo do conto de fadas, INDEPENDENTEMENTE.
Caso seja eu a única pessoa a presenciar constantemente casos destes, passo a exemplificar, na primeira pessoa do singular.

“Ora, vamos comprar um carro. “ Ganham o suficiente para pagar o empréstimo de um Fiat. Compram o Fiat? Não, claro que não. Por que carga de água iriam comprar um Fiat se o que queriam mesmo era um Audi? Só se vive uma vez, venha de lá o Audi.  “E agora, como é que pagamos o empréstimo? Ficamos sem dinheiro nenhum para contas,  comida, etc..!!” Mas têm um Audi, é o que importa!

“Isto de viver com os pais não é nada “cool”...tenho de arranjar casa. Ganho tão pouco...se conseguir alugar um T0 é uma sorte. Mas não, tem de ser, o meu status social é primordial, não posso continuar a viver com os meus pais. Vou alugar uma casa, os avós e os tios também devem ajudar a pagar a renda, é na boa. Também só gasto na renda, depois vou jantar todos os dias à casa dos meus pais e levo a roupa para a minha mãe lavar e passar. É na boa.” MAS tem morada diferente da dos pais, apesar de nada ter mudado, é o que conta, já é “independente”.

“Então querida, o que achas de casarmos? Já namoramos há tanto tempo, acho que está na altura.  O que interessa é mesmo a nossa união, casar não é caro, a festa é que pesa. Podíamos fazer uma coisinha pequena, só para os mais íntimos, singelo mas belo...se bem que..é uma pena não termos dinheiro para uma festança daquelas...200 convidados, num lugar da moda, convites bordados a ouro, lembranças para todos os convidados...eh pá, isso é que era! Pensando bem..não podemos ser forretas, não é? Só se casa uma vez!” (Lol?) “Olha, dane-se, bora lá fazer uma festa como merecemos, dinheiro arranja-se! “

“30 e poucos e nada de bebés? Não pode ser.  Para os homens ainda é naquela, mas para as mulheres, a janela da fertilidade diminui a cada dia. Não conseguimos pagar as contas todas da casa, vamos jantar quase todos os dias à casa dos papás, e nem dá para ir jantar fora uma vez por semana, mas temos mesmo de ter um bebé. Tem de ser. Não há espaço em casa, só temos um quarto, mas onde cabem dois cabem três. Eh pá, mas um bebé, diz que dá muita despesa...se nem sobra para nós, como é que vamos  pagar médicos, o parto, toda a panóplia de bens materiais que envolvem um recém-nascido? E depois, com quem é que o vamos deixar? Temos de trabalhar os dois e os avós também trabalham. Creche, claro. Diz que custa balúrdios... Bom, mas a janela é que importa, venha de lá o bebé, o resto depois resolve-se. “

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Então não resolve, meus amigos? Claro que tudo se resolve! Não tem dinheiro para pagar o empréstimo do carro? A avó ajuda, querido. Não há dinheiro para pagar renda de casa, comida, e contas? Não faz mal, os papás pagam a renda, fornecem a comida e o serviço de lavandaria e ainda limpam a casa ao domingo.
Vão casar? Casem à vontade, não se esqueçam de convidar também o senhor do talho, que assim pode ser que faça desconto na carne. Há espaço para todos, os sogros pedem um empréstimo, o vestido de noiva paga-se em prestações e as alianças de ouro e diamante os padrinhos fornecem.
Bebés? Venham eles, aquelas coisas ricas, que derretem o coração de qualquer um, sejam feios ou bonitos. Coração derretido, carteira aberta. Quem não tem dó de uma grávida ou de um bebé em necessidade?  Precisa de 30 biberons, 1427 fraldas, um berço, carrinho, cadeirinha, cremes para cada cm de corpo e 10 mudas de roupa diárias? Oh meus caros, é só pedir, não queremos que falte nada à criança, por quem nos tomam?  Ah, têm uma lista na loja? Melhor ainda.

Já que a dignidade é irrelevante, quiçá nem sabem o que significa, podem sempre fazer como uns e outros, e escolher cônjuge única e exclusivamente baseado no valor da conta bancária e influência social. Pelo menos poupam-nos a parte do choradinho "Ai, a vida esta tao difícil, o dinheiro não chega nem para metade das contas, ai,ui..", choradinho esse, que me comove tanto como um alcoolico morrer de cirrose hepática. Poupam-nos os ouvidos e a carteira e torna-se muito mais divertido de assistir.

Oh meus caros..querem ter carro, casa, filhos e festas de arromba? Acho uma belíssima ideia. Querem casar com vestidos decorados com cristais Swarovski? Brilhem à vontade. Bebam Dom Perignon ao pequeno-almoço se quiserem, mas pelo amor da cara-de-pau,  paguem do vosso bolso e deixem de viver vidas que não podem suportar, porque as restantes pessoas com dignidade que restam no mundo e que vivem a vida que têm CAPACIDADE de suportar, não ganham para suportar a vossa. Sim?  A Santa Casa da Misericórdia ainda funciona, tentem por lá. Talvez devesse abrir a Santa Casa da LATA DESCOMUNAL, seria um sucesso. Até lá, ganhem vergonha na cara (diz que é grátis).

terça-feira, 2 de junho de 2015

Razzies Do Quotidiano


Men should be what they seemor those that be notwould they might seem none!” William Shakespeare

Antes de mais, devo frisar que este desabafo, apesar de estar relacionado com orientação sexual, não é para aí virado.


(Esta merece uma pausa.)



Dado que não é esse o foco do tema, não percamos tempo a aprofundar o ponto errado. 
Sim, há aparências que iludem, nem tudo o que parece é, mas, meus caros, há também o óbvio, o que parece, e é mesmo. Eu, sinceramente, não me interessa minimamente o que cada um faz da sua vida, como, quando, onde, ou com quem. Cada um sabe de si, tanto se me dá, como se me deu. É do conhecimento geral, que o facto de uma pessoa (seja do sexo feminino ou masculino) gostar do mesmo sexo, não é aceite por todos os indivíduos do planeta. No mesmo barco, encontram-se casais inter-raciais, casais de gerações, culturas, religiões, ou estatutos diferentes. 

Eu percebo que, por exemplo, para uma pessoa homossexual com uma família mais...chamemos-lhe “conservadora”, “pouco dada à ciência”, não seja fácil apresentar uma cara metade com o mesmo par de cromossomas sexuais. Variará, consoante a família, e, cada caso é um caso. Por vezes, há todo um leque de variáveis em jogo: afectivas, morais, monetárias, sociais. Ok.

Podíamos ficar por aqui, e pronto, cada um sabe de si, porque não temos absolutamente nada a ver com a vida alheia. Podíamos…mas não. E porquê? Por causa das pessoas que levaram ao nascimento deste post: os seres que se acham superiores e rodeados de acéfalos, e fazem da sua vida uma comédia, com actuações dignas de uma Framboesa de Ouro.
Como com todos os filmes, há sempre quem ache piada e até mesmo quem não compreenda o óbvio, mas pelas opiniões que ouço, será uma minoria, nestes casos (felizmente). 

Assistir a pessoas , especialmente quando são do sexo masculino e já para lá dos 20, obviamente (sim, é evidente, e não é preconceito, é pós-conceito) gays (e assumidamente para um número restrito de pessoas, muitos deles) a falar de mulheres como se fossem os maiores garanhões da zona, e a fazerem o papel de “playboy”, chegando mesmo a vias de facto com o máximo possível de exemplares do sexo oposto, de modo a consolidar o papel, é absolutamente degradante (e ridículo) e não convence ninguém que possua mais de meia dúzia de neurónios e tenha a visão funcional.

Do meu peculiaríssimo ponto de vista, coragem, significa enfrentar o medo e agir, independentemente das consequências pessoais. Nem todos os seres possuem essa nobre característica, é um facto. Na minha singela opinião, acho deveras triste e pouco honroso que alguém não tenha intrepidez suficiente para assumir a pessoa que é, com tudo o que isso engloba, mas, novamente, cada um sabe de si, o que está em jogo, pros e contras, as suas prioridades e o tipo de pessoa que é, ou quer ser. A vida é de cada um, cada um é livre de fazer as suas escolhas e viver da forma que quiser, mas há limites (digo eu). Exemplifiquemos: 

Ora agora, anda por aí, completamente à solta, o fenómeno do "pandering", super na moda nos dias que correm. Ou seja, dizer o que é suposto, independentemente da opinião pessoal, é satisfazer os ouvidos da humanidade do século XXI. É mostrar uma mente tão arejada, mas tão arejada que se torna oca, pronta a ser formatada com o "politicamente correcto". 

Ultimamente, tudo o que é meio de comunicação, anda entupido com uma celebridade que nasceu do género masculino (somente no exterior, diz o próprio/a?) que tem sido muito aclamada por ter tido a coragem de após cerca de quase 7 décadas de existência, 3 casamentos com pessoas do género feminino e 6 rebentos, assumir que afinal não era bem homem e que sempre quis ser mulher (haja persistência e amor pela representação). O processo de mudança de sexo já está practicamente  finalizado. Exige coragem? Pois com certeza que sim. Exige todas as partes que a esta hora ja lhe foram removidas. Eh positivo? Bom, acho que cada um deve fazer o que for preciso para ser feliz, e se a pessoa agora se sentir finalmente bem e orgulhosa do resultado, certamente. Tudo muito bem, seja feliz nos 20 e poucos anos que lhe restam. Temos todo um final feliz, palmas e elogios de tudo o que é boca...mas...agora pergunto eu: então e ter pensado nisso antes de ter 3 mulheres e 6 rebentos? Humm? Não viver toda uma vida de fachada, enganar 3 mulheres e fazer 6 filhos terem de deixar de ter Pai e de passar por tudo isto? "Olhem filhos, o pai vai ali mudar para mulher, tem um novo nome e a partir de agora vai ao cabeleireiro e manicure todas as semanas e usa baton e sombra nos olhos, mas nada muda, só não me voltem a chamar pai que isso me arrepia." 

Parece-me um caso chapadíssimo de egoísmo. A vida é feita de escolhas e cada escolha tem as suas consequências. Se há quem não tenha a coragem de ser o que é, pelo menos, viva a sua vida de forma a que todas as consequências dos seus actos não mudem a vida de terceiros. E por terceiros, entenda-se filhos, e por filhos, entenda-se pessoas que decidimos pôr no mundo e cuja felicidade e bem-estar são a nossa principal preocupação. 

Meus caros: uma coisa é não querer assumir, isso é lá convosco. Outra coisa, é atirar areia para os olhos dos demais e afectar irreparavelmente a vida de terceiros. Se as pessoas que vos rodeiam, são suficientemente educadas e bondosas, para fingir que não percebem a vossa preferência, o mínimo que se pede em troca, é que não insultem a inteligência alheia, ao encarnar uma personagem. Ou, pelo menos, tenham aulas de representação, davam um jeitão.  Ou, melhor ainda, percebam que quem vos estima realmente, se preocupa com muita coisa relacionada convosco, mas não com o facto de dormirem com ele ou com ela. 


Caríssimos.....corta!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Rei Vai Nú


Ora bem, sinónimos de “parvo”. Humm...idiota? Imbecil? Otário? Tanso? Candidato a bolsas de investigação? Confere!
Pois bem, não é preciso ter sido estudante académico para perceber o que exporei em seguida, uma vez que fora do mundo académico as coisas funcionam da mesmíssima forma (quem não se lembra do recente anúncio do centro de emprego que só admitiria a Vera?), é problema global, mas é o descaramento explícito, a falta de preocupação em disfarçar minimamente, que me leva a dar relevo ao mundo das “bolsas de investigação”. Eis onde reside a verdadeira comédia.
Recebi mais uma resposta de umas das dezenas de bolsas de investigação a que me candidato mensalmente. Com um prazo de resposta máximo de 30 dias,  esta resposta já vinha com vários dias de atraso. A falta de cumprimento de prazo poderia já sugerir falta de profissionalismo, mas passemos esse detalhe à frente.
Abri o dito email, lá li a típica frase condescendente “Vimos pela presente agradecer o seu interesse em colaborar com a nossa instituição, contudo, lamentamos informar que não foi seleccionado(a)……” pela centésima vez. Poderia ter parado por aí, já que a resposta estava dada, mas curiosa que sou, resolvi dar uma espreitadela à tabela de classificações e ver quem teria sido o afortunado. Na maioria dos casos, a bolsa é atribuída a uma pessoa que, obviamente, por mero acaso, ou joga futebol com um dos jurados, ou faz parte da "casa", ou por vezes, até partilha DNA com um dos membros do júri, etc. Há coincidências fantásticas nesta vida, mas deixemo-nos de balelas, falando sem rodeios, 99.9% das bolsas já estão atribuídas à partida, sendo a publicação do anúncio uma mera formalidade. Fazem-nos gastar paletes de papel, pagar correio e gastar tinta, absolutamente em vão. Há até mesmo casos em que é pedido a possíveis concorrentes  que não se concorra a determinada bolsa de modo a que o processo seja mais rápido para a pessoa escolhida, a quem a bolsa, ainda não publicada, será concedida.
É o mundo em que vivemos. É um mundo de cunhas e assim permanecerá. Agora, o que me repele, é, tal como disse no início, a já total falta de vergonha e encobrimento. Se querem atribuir a bolsa a determinada pessoa, escolhendo tudo o que tem no currículo para pôr nos requisitos do anúncio, chegando mesmo por vezes a inventar requisitos absolutamente caricatos, do género de pedirem, por exemplo, experiência em amostragens em barcos de 14,5356 metros, baptizados como "Tretas do Atlântico", se fôr esse o requisito que distinguirá o indivíduo pretendido num oceano de pessoas com o mesmíssimo currículo, ou muitas vezes, com um currículo muito mais vasto e rico, pelo menos que o façam o mais discretamente possível.
Continuei então, a analisar a tabela de resultados. Temos 4 colunas. 3 delas, relativas a experiência em determinadas funções e uma quarta, relativa a fluência de inglês, falado e escrito. Comecei a ver as notas (escala de 0 a 20). Eis que chegamos ao busílis da questão.
Como é que se avalia o nível de inglês de uma pessoa, falado e escrito? Talvez seja eu que tenho uma imaginação limitada mas….só me ocorrem testes. Testes orais e escritos, como os do British Council, por exemplo. Isso, ou então, numa entrevista. Não? Alguém tem mais alguma ideia? A verdade é que deve haver outra forma porque não entreguei nenhum teste, e a mim, ninguém me entrevistou. No entanto, como que por milagre, conseguiram avaliar o meu nível de inglês. Na minha carta de motivação e curriculum vitae, está bem explícito que o meu nível de inglês falado e escrito é excelente, cheguei a utilizar a palavra fluente. Desde que me lembro de mim como gente que uso o inglês tanto como o português, sendo o inglês língua oficial do país em que nasci. Nunca tive menos de Muito Bom a inglês e 20 era a nota média no secundário. Agora a melhor parte. Querem saber qual a nota que me foi atribuída nesta avaliação paranormal?
……..
………….
(Wait for it)
…………….
……………..
Um mísero e singelo…3.
…………
…………
………….
 Sim, leram bem, não falta nenhum número, é mesmo um 3. Como se o 3, por si, não fosse suficientemente cómico, reparei que só duas pessoas, em dezenas, tinham tido pior nota do que eu. Um deles teve 0, pelo que deduzo que seja mudo e desprovido de braços. A nota máxima atribuída foi um 16 (tem nome tuga mas devia ser bifa, provavelmente). Já não é a primeira vez que uma coisa destas me acontece, tendo já ficado abaixo de outros candidatos (cujo nível de inglês conhecia muitíssimo bem e era muitíssimo mais baixo do que o meu), exacta e unicamente devido à nota do nível de inglês, falado e escrito.
Portanto, meus caros, achei que seria egoísta de minha parte, especialmente em tempos de crise (para alguns), guardar algo tão hilariante só para mim e se restava alguma dúvida sobre fenómenos paranormais, as atribuições de classificações em bolsas de investigação vêm demover qualquer apreensão.
Poderia pensar que ao escrever isto estaria a eliminar para sempre qualquer hipótese de algum dia me ser atribuída alguma bolsa, mas perder o que quer que seja, implica que alguma vez tenhamos tido a oportunidade de a ter não é? Portanto, tranquilamente vos digo: “não corro o mínimo risco”.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Canis vulgaris Vs Homo sapiens

“The question is not, "Can they reason?" nor, "Can they talk?" but rather, "Can they suffer?"” ~ Jeremy Bentham

Se alguém me perguntar quais os dias da minha existência que recordo com mais carinho ou que mais me marcaram, inclúo, sem qualquer sombra de dúvida ou hesitação, os dias em que cada uma das três cadelinhas que já tive o prazer de adoptar, entraram na minha vida.

Já dizia Gandhi, que a grandeza de uma nação e o seu progresso moral poderia ser julgado pela forma como os seus animais eram tratados. Concordo a 100%. Digam o que disserem, deem asas à imaginação à vontade, mas ninguém nunca me conseguirá convencer de que alguém que não gosta de animais, ou pior ainda, que os maltrata, é de boa índole.

Falemos dos cães, animais felpudos de quatro patas, nariz húmido, olhos atentos, paciência infindável e devoção sem limites.

Grande parte da população entende que lá porque não deixa o seu cão passar fome e sede, é um excelente dono. Se há alimento, é o bastante! Cão é cão, são animais e não pessoas, para além de que têm pêlo, portanto não há qualquer problema em dormir ao relento (independentemente da espessura de pêlo do canídeo). A população em questão, na sua maioria vê o cão como um sistema de alarme barato: serve para proteger dos ladrões, guardar a casa e pode ser adquirido sem despesa. Aqui, temos dois tipos de donos: o dono que deixa o cão à solta no jardim, de modo a poder proteger todo o perímetro da propriedade e alertar em caso de ameaça; e o segundo tipo, o dono que mantém o cão acorrentado ou preso numa área extremamente limitada, que vê o animal apenas como um alarme, sendo o seu único propósito ladrar, em caso de intrusos (mas, ai do bicho que ladre por qualquer outra razão, muito menos acorde os donos em vão).

Para além do cão de guarda, há ainda o "cão boneco". Ora, por "cão boneco" entenda-se o cão que habita o exterior da casa, podendo ter acesso a todo o terreno ou estando condicionado a uma zona muito restrita, género canil. Esse tipo de cão funciona como boneco, uma vez que consegue ter a atenção do dono, sempre que este se lembre do mesmo e decida dedicar-lhe alguns minutos de atenção ou simplesmente exibi-lo em caso de visitas. Retira-se o animal do canil, dá-se uma voltinha ou duas e volta-se a guardar, tal e qual bonecos na prateleira.

Outro tipo de cão semelhante são os "cães de caça", com função específica, sendo únicamente utilizados para tal, sendo esse o seu único momento de liberdade.

O “cão sazonal” resulta muitas vezes de um capricho momentâneo, podendo ser melhor ou pior tratado, sendo descartado na maior parte das vezes na época balnear, uma vez que se torna um estorvo em época de férias, sendo impiedosamente libertado em qualquer ruela afastada do endereço ou até mesmo em andamento, numa auto-estrada. Aqui pode ainda ser inserido o “cão prenda/capricho”, muitas vezes resultado de pedidos de crianças que rapidamente se fartam do mesmo ou das responsabilidades que comportam, sendo então despejados no canil mais próximo. Uma casa cheia de pêlos, com pingos de urina no melhor tapete, madeiras roídas, são coisas absolutamente insuportáveis. Já não lhes basta a vida ocupada que têm, ninguém está para perder tempo a educar um cachorro. Este ponto torna-se deveras importante, uma vez que uma das desculpas mais utilizadas por donos para terem o seu cão acorrentado, enjaulado ou metido num canil é o seu “mau comportamento”. Falam do pobre como se fosse o diabo personificado (canificado?): “Ai, não o posso deixar entrar em casa senão ele rói tudo, alivia-se onde não deve e o cheiro é horrendo, não pode ir para o jardim porque destrói os canteiros, tem de estar preso porque morde.” Provavelmente estou a esquecer-me de inúmeras desculpas que os donos usam para a sua falta de dedicação e paciência, mas penso que estas são as mais comuns. A propósito, se alguém me acorrentasse ou deixasse presa num espaço limitadíssimo e me deixasse a dormir ao relento, também não seria a criatura mais amistosa à face da Terra. Chamem-lhe carácter, pois então!

Há ainda o “cão multibanco”, sempre de raça, cujo único propósito é cobrir fêmeas, ou no caso das fêmeas, serem cobertas, de modo a produzirem o máximo de ninhadas possíveis, independentemente do estado de saúde dos progenitores, tempo de resguardo ou doenças congénitas.

Sem me alongar neste caso, temos o “cão de luta” ainda hoje utilizado em diversos países, sendo tratados como escravos gladiadores.

Por fim, temos o "verdadeiro cão", o membro mais felpudo e de língua mais comprida da família. O cão que é tratado com respeito, carinho e visto como uma dádiva e não como um servo ou um simples animal desprovido de sentimentos, fonte de rendimento ou estatuto.

Um dia destes, e uma das razões pelas quais decidi finalmente fazer este post, foi um comentário de uma pessoa conhecida, que teve a ousadia de me dizer: “Sabes que nem toda a gente trata os cães como nós.” Até agora, ainda não sei se deva rir ou chorar com tamanho infortúnio. “Nós?”

Deixem que vos elucide minimamente. Milhares de pessoas ficariam/ficam horrorizadas com a forma como trato as minhas cadelas, provavelmente da mesma forma que eu fico horrorizada com a forma como tratam os seus animais. As minhas cadelas não são apenas cães, cujas únicas necessidades são comer e dormir. São parte de mim, parte integrante do meu núcleo familiar. Vivem comigo, dentro de casa, quer viva numa vivenda ou num apartamento, dormem comigo, inúmeras vezes debaixo dos duvets (sim, leu correctamente) e inúmeras vezes durmo em posição mais desconfortável para que elas fiquem mais confortáveis. Têm todos os papéis em ordem, todas as vacinas em dia, já gastei barbaridades em despesas veterinárias. As minhas cadelas não são “apenas cães”, são parte de mim, membros da minha família e portanto, são tratadas como tal e dispõem de afecto e devoção infindável. Isto, sou eu, óbviamente. Certamente haverá quem encontre todo o tipo de "justificação" possível para a minha "demência".

Continuando.

A pessoa em causa tem o cão a viver permanentemente na rua, sendo o interior da habitação território completamente interdito. Violação dessa regra tem como consequência o punimento físico. O máximo de carinho que o animal recebe é uma pancadinha leve na cabeça caso ladre na altura devida, a intrusos. Veterinário é palavra desconhecida, uma vez que é dispendioso e é o maior desperdício gastar dinheiro com um animal, onde é que já se viu tamanho disparate? Registar o cão na junta de Freguesia como obrigatório por lei, etc é hilariante. O cão é animal, não é gente, não misturem as coisas. Melhor ainda (sim, é possível), possui vários cães de sexos diferentes. Milagrosamente, a cadela acaba sempre por engravidar (vá-se lá saber como). Já que perder tempo e dinheiro com métodos contraceptivos ou operações de esterilização é um perfeito disparate, a cadela que engravide e depois quando os bébés nascerem resolve-se. Afoga-se toda a ninhada, asfixia-se tudo num saco ou deita-se no contentor mais próximo. Simples e rápido. E é esta a realidade.

Há quem diga que é uma questão de educação, que as pessoas que fazem este tipo de coisa foram educadas assim ou não têm instrução para mais. Não têm instrução para mais (sem qualquer dúvida) mas a verdade é que vem da alma e quem faz isso é porque (permitam-me a franqueza) é absolutamente podre por dentro, independentemente da sua educação.

Portanto, a todas as pessoas que não têm o “verdadeiro cão”, mas que mesmo assim têm a sorte de ter um ser que os ama incondicionalmente, apesar da forma como o tratam, deixem que vos diga, não há “Nós”, não há a mínima semelhança entre nós. A todos os outros, que sabem exactamente ao que me refiro e que partilham o meu amor pelos animais, e nomeadamente cães e a sua magia, sim, “Nós”, com todo o orgulho e felicidade que só um verdadeiro “dog lover” conseguirá perceber.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Vestes e Assepsia

Pois bem: diz o conceito de higiene, ou seja, o “conjunto de conhecimentos e técnicas para evitar doenças infecciosas usando desinfecção, esterilização e outros métodos de limpeza, com o objectivo de conservar e fortificar a saúde” que são necessários hábitos e condutas que nos auxiliem a prevenir doenças e a manter a saúde e o nosso bem-estar, inclusive o colectivo. É devido à palavra colectivo que me expresso, dado uma pessoa ser, por vezes, obrigada a conviver com um grau de imundície indesejável.

Talvez a maioria das pessoas não repare, mas penso que até o mais desatento dos indivíduos consegue notar, ao sétimo dia (sim, sétimo, é o recorde presenciado até à data, mas acredito que será batido) que a indumentária de determinados indivíduos não se alterou. Não, meus caros, não me refiro a uniformes nem batas. Refiro-me a tirar uma roupita do armário e em vez de estar a escolher a roupa do dia ou do dia seguinte, estar a escolher a roupa………da semana!

Não sei se será problema do meio em que me encontro (talvez seja tradição nas redondezas, não é uma grande cidade) ou se será um problema de defesa do planeta, nomeadamente a poupança de água, levada ao extremo, apenas aversão à limpeza, ou consequência duma infância passada a ler os almanaques do Cascão, mas, a não ser que a pessoa seja um sem-abrigo, detentor de nada mais do que essas duas peças de roupa, aos meus olhos, não há desculpa possível. Os mais optimistas podem sempre tentar convencer-se de que o sujeito em questão lava a roupinha todas as noites e que apesar de usar a mesma, esta vem lavadinha, macia e com cheirinho a fruta. Eu, como ser mais pessimista (entendendo eu por pessimista, mais realista) não ponho essa hipótese, sendo essa rapidamente descartada aquando da aproximação dos indivíduos em análise. O aroma até terá algo a ver com fruta, mas podre. O olfacto não deixa dúvidas e levanta outra questão. Ok, chegámos à conclusão que os trapos estão imundos…mas…e o que se esconde dentro dos trapos? Uma pessoa que não se importa (e parece ter gosto em) ostentar a mesma indumentária sete dias seguidos não deve ter grande preocupação em retirar as camadas de sujidade que se acumulam ao longo do dia na epiderme.

Envergar o mesmo tecido dias a fio, já seria suficientemente mau, mesmo que a pessoa mal se mexesse. Agora, imaginem, adicionar exercício físico, trabalhos pesados e temperaturas de 30ºC à equação.

Facto ou ficção?

Facto.

Continuo a perguntar-me se será problema do meio, da educação ou quiçá, alguma mutação genética em alguns indivíduos. Já deixei de tentar compreender a teoria de grande parte da população feminina de que só se lava o cabelo de dois em dois dias (quando não é uma vez por semana), que não se toma banho quando se tem o período (e não se pode bater natas e claras nesta altura porque senão estas não crescem, esta é a minha preferida). Estando nós no séc XXI, em que as crendices populares deveriam ser nada mais do que uma comédia de outros tempos, penso que a resposta será mutação genética.

Acontecimentos e crendices deste género levam-nos a magicar planos de acção, como por exemplo , tentar (de uma forma muito subtil) entornar algo seboso no cabelo de determinadas pessoas, algo com uma cor bem viva numa peça de roupa, criar uma nódoa de tamanho considerável ou até mesmo, em caso de desespero extremo, recorrer à impiedosa lixívia, ditando assim a morte da maldita peça. Infelizmente, a moral prevalence e impede este tipo de abordagem.

Resta-me apenas manter o máximo de distância possível destes antros de sujidade e dar graças à mãe Natureza e à mãe biológica, por não se terem esquecido de me implementar o gene e o conceito correcto de higiene.

Com cheirinho a fruta, me despeço.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Encómios & Menoscabos

Há alguns anos, alguém me disse inúmeras vezes que eu não devia apontar o que outras pessoas faziam de errado porque assim estaria a melhorá-las e com isso, estaria a tornar as pessoas especiais menos especiais. Tem uma certa lógica, mas dado o que tenho observado ao longo da minha existência, sinceramente, acho que não se corre esse risco, DE TODO.

Há uma coisa que os ditos sujeitos “menos especiais” (querendo com isto dizer comuns) fazem, que me irrita de sobremaneira e é difícil passar um dia sem ter que apreciar algo deste género. Refiro-me a elogios.

Passo a explicar: segundo o dicionário, elogio é o enaltecimento de uma qualidade ou virtude de algo ou de alguém. Muito bem. Enaltecimento de qualidades parece-me muitíssimo bem, acho que é algo que qualquer criatura apreciaria. A minha dúvida é a seguinte: é necessário o elogio ser verdadeiro bem como ser algo mais restrito ou basta ser um elogio? É uma pergunta bastante persistente, segundo o meu (limitado) ponto de vista.

Um meio de pesquisa muito interessante para este tema é o popular “Facebook”. Ora bem, quem der alguma atenção a este tipo de coisa, há-de reparar, certamente, na quantidade de vezes que aparecem, por dia, elogios ao próximo, quer sejam de fotos ou frases. Elogios dirigidos a um sujeito específico.

Tomemos como exemplo uma personagem fictícia chamada Joana. Joana tem 100 amigos. Com alguma pachorra de pesquisa, notamos que os 100 amigos de Joana não são clones, nem sequer aparentados. 100 indivíduos com fisionomias completamente diferentes e (com muita esperança) personalidades muito variadas. Pois bem: Joana comenta fotos e escreve dedicatórias a mais de metade dos seus amigos facebookianos. Joana diz a João que é lindo de morrer. Uns cliques depois, lêmos que Joana disse a André que é lindo de morrer. Podia continuar mas só iam variar os próximos 50 nomes (ou nem isso). Hummm….ok. Eu sei que não sou exemplo porque ainda estou para descobrir alguém com um gosto mais restritivo do que o meu mas, se o meu é restritivo demais, então achar 50 ou 100 pessoas que nada têm em comum fisicamente LINDAS DE MORRER é não ter gosto sequer (deve ser uma vida bastante mais fácil, diga-se de passagem). Não há a mínima diferenciação, tudo é lindo, logo, não há gosto, já que gosto implica escolha, padrões. Agora, vocês dizem-me: toda a gente tem algo de belo, etc, etc. Não concordo, mas não vou entrar por aí. Uns até podem ter uns olhos belíssimos, outros um cabelo fenomenal, uns lábios esculpidos e por aí adiante, tudo bem. Agora, dizer que alguém é lindo, no meu dicionário, vai um pouco mais além, mas como sempre, isso sou Eu (a esquisita). Se quiserem pegar na parte interior, pode ser analisada, mas os comentários a que me refiro não se referem a belíssimas personalidades. Sim, a beleza interior consegue fazer muito pela exterior mas meus caros, sejamos realistas, nem essa faz milagres. É possível amar o feio, este tornar-se mais menos feio por isso, mas há que ser honesto e admitir os factos (não sou insensível, sou realista).

Entregas de prémios e entrevistas, por exemplo. É rara a entrevista em que não comecem por elogiar a beleza bem como a indumentárias dos exemplares femininos, sejam eles quem forem. Já vi elogios a pessoas que já nem feições têm devido às plásticas e a roupas que nem recebendo dinheiro para tal, alguém vestiria! É absolutamente ridículo, um espectáculo de acéfalos e hipócritas, ou pior, dos dois num só. Elogios fazem parte da educação, é educado elogiar alguém sim, é, agora, o problema é o elogio que se faz!! Não se vai dizer a uma pessoa que sofreu queimaduras severas na cabeça e perdeu 90% do couro cabeludo que o seu cabelo está lindíssimo esta noite!! Deixa de ser educação e passa a ofensa. Sim, a maioria das pessoas pode ficar feliz na mesma, já que a maior parte não consegue distinguir elogios, ou tem uma auto-estima tão pobre que nada mais interessa, mas qualquer pessoa com alguma auto-estima e provida de cérebro consegue aperceber-se se é um elogio, se é uma ofensa (mal) disfarçada ou se é uma frase que já é automática. Para mim, é absolutamente irritante e deprimente assistir a este tipo de coisas. Há que ser realista e se não houver nada bom a dizer, mais vale ficar calado ou dirigir o tema para outros caminhos.

Uma das coisas que (pelo menos para mim) faz toda a diferença é “quem” profere o elogio. Ainda no outro dia fiz um elogio a uma amiga minha. A reacção não foi “Ah, obrigada” mas sim uma cara de espanto e “Bem, isso é que é um elogio, vindo de ti tem muito valor”. Porquê? Porque sabia que se eu o estava a dizer era porque realmente achava o que tinha dito. Quando se diz a alguém (por exemplo) que é lindo não interessa se essa pessoa é linda ou não, segundo os padrões mais comuns, mas sim se nós a achamos linda ou não, segundo os nossos padrões específicos e isso sim, é que tem realmente valor. O ponto chave é a honestidade. O maior problema é que o leque de pessoas de quem se pode acreditar realmente num elogio, é muitíssimo reduzido, uma vez que a maioria dos seres usam os mesmos elogios para centenas de pessoas, perdendo o elogio, todo o seu valor. Se alguém nos disser que somos lindas, que somos umas pessoas fantásticas, ficamos felicíssimas, quem não gosta? O efeito não dura, uma vez que quase invariavelmente, o mesmo elogio é dirigido a mais umas dezenas de pessoas e assim, deixamos de ser especiais e passamos a ser apenas parte de um grupo tão imenso como a estupidez e hipocrisia de quem proferiu o elogio. Geralmente, nesse grupo há sempre alguém que achamos horrível, o que ainda consegue tornar a situação mais deprimente.

Um exemplo que uso muito é o de quando alguém está inseguro relativamente a uma peça de roupa ou vem bastante feliz exibi-la e nos pede a opinião. A frase cliché é independente da verdade, quase toda a gente diz que fica muito bem ou que está linda (como todas as outras pessoas que conhece). Haverá quem esteja e quem mereça o elogio e haverá quem ache realmente que a pessoa está linda. Lá porque não se achou a roupa bonita, que ficasse bem, ou que fosse a escolha mais acertada, não devemos magoar a pessoa (tacto é das coisas mais raras e por isso das que mais admiro), o que eu acho é que se temos essa preocupação com a pessoa também a devemos ter quanto a enganá-la e mentir, é enganar. Se a opinião é menos boa, há maneiras de o dizer e há sempre forma de puxar a conversa para algum pormenor ou forma de dissipar a o assunto. Para quem não tem dom suficiente para tal, sinceramente, acho melhor dizer que, realmente acha que a roupa não fica tão bem, do que dizer que fica e a pessoa fazer a figura que muitas pessoas fazem por essas calçadas fora, convencidíssimas que estão um estouro (porque alguém muito querido lhes disse que o estavam). Também há quem diga que a pessoa está perfeita, exactamente com o intuito de que a pessoa apareça no seu pior, mas isso, já é outro tema.

Elogios podem ainda ser um meio rápido e eficaz para se atingir um determinado fim mas assim voltamos sempre a falar em acefalia (característica sempre presente) e torna-se repetitivo.

Talvez seja eu, que seja desconfiada, esquisita e dura demais, quiçá. Sou a favor da liberdade e cada um sabe de si, portanto, quem quiser construir uma auto-estima baseada em ficção, esteja à vontade, apenas perdoem a minha falta de contribuição.

“A compliment is usually accompanied with a bow, as if to beg pardon for paying it.” ~A.W. Hare & J.C. Hare

terça-feira, 29 de junho de 2010

União de futuros Ex-cônjuges aka Casamento

“Blessed is he that expects nothing, for he shall never be disappointed.” Benjamin Franklin, 1739

Hoje não é certamente o melhor dia para escrever, não estou lá muito coerente mas é hoje que me apetece, portanto, aqui fica. Como sempre, aviso-vos que quando falo sobre determinado assunto, não é para ser entendido como uma regra, mas sim como a maioria. Só faço generalizações a 99%, nada pode ser a 100%, há sempre excepções, sendo geralmente essas, as que fazem o mundo ainda valer a pena, como por exemplo os meus pais, que farão 39 anos de casados para o mês que vem e que são o meu melhor exemplo.

Desde tenra idade que nos enchem o imaginário com contos de fadas, príncipes encantados e o famoso “viveram felizes para sempre”. Passamos anos e anos a formar uma ideia de vida perfeita, de um futuro imaculado, em que todas as peças se encaixam. Qual é a brincadeira mais comum com Barbies? Encontrar o príncipe encantado (perfeito em todos os sentidos e temos vários modelos para escolher), o dia do casamento e os rebentos, para completar o quadro perfeito. Neste ponto refiro-me a crianças do sexo feminino (maioritariamente). Os rapazes nestas idades são bastante mais inteligentes, preferem brincar com carrinhos, lutar e jogar futebol, o que é bastante mais útil (e realístico) para o seu futuro.
Os anos passam e as raparigas deixam então as Barbies de lado e tentam começar a jornada da busca do príncipe encantado. Os rapazes mantêm os mesmos hábitos de criança (são criaturas quase imutáveis), acrescentando apenas o interesse por mulheres (geralmente), ou por sexo, para sermos mais exactos. No entanto, as prioridades mantêm-se. Talvez por não existir o conceito de princesa encantada e por não terem o mesmo número de anos dispendidos a pensar no assunto, os homens são muito menos exigentes que as mulheres , neste ponto. O essencial são os atributos físicos, o resto é bónus. As mulheres (quase doutoradas no assunto aos 18), têm uma lista infinita de características necessárias antes dos atributos físicos (sim, a parte monetária entra na lista, podendo vir antes ou depois dos atributos físicos, dependendo do sujeito em questão).
Como se costuma dizer “enquanto não encontras a mulher certa, diverte-te com as erradas”. E é vê-los a mudar de parceira como nós mudamos de roupa. É o dito garanhão, muito aclamado, muito requisitado. Tal como já tinha comentado, parece que quanto maior o currículo de um homem melhor o mesmo, óptimo partido. Por sua vez, uma mulher tem de funcionar ao contrário, quanto mais curto o rol de homens no currículo, melhor. Hei-de perecer a tentar entender isto mas a explicação mais interessante que já ouvi até hoje é a seguinte: uma chave mestra é uma coisa excelente de se ter, abre todas as portas; agora, uma porta que pode ser aberta por qualquer chave ninguém quer, não é uma boa porta. Tem lógica e acho que é das melhoras definições para o sexo masculino, tanto que vou adoptá-la: chaves mestra. Pois bem, chaves mestra é o que não falta por aí (tal como portas com fechaduras muitíssimo simples, algumas até nem necessitam de chave) mas voltemos à noção de príncipe encantado. Cada porta é construída com uma determinada fechadura, fechadura essa que é construída com um chave e é essa a chave que se procura e não uma chave mestra, que pode abrir qualquer porta (isto digo eu, é claro).
Lá chega (ou chegava) uma altura em que a porta acha que encontrou a chave correspondente e a chave (provavelmente por insistência da porta) lá pede à dita porta (ou apenas diz que sim) que contraia matrimónio consigo.
Momento de pura euforia, o momento pelo que a porta sonhou toda a sua vida, desde que era parte de uma árvore, tinha finalmente chegado. Aquela chave era o amor da sua vida, foram feitos um para o outro, encaixavam na perfeição, o click era perfeito, a fechadura iria funcionar até que a morte (ou o caruncho) os separasse. Faz-se uma festa enorme, gasta-se o dinheiro que se tem (e o que não se tem), convidam-se conhecidos e desconhecidos e jura-se amar e respeitar o outro até que a morte os separe, o que equivale aos seus “para sempre”. Afinal a vida é mesmo um conto de fadas, os livros tinham razão, é impossível estar-se mais feliz.

Humm..será? Preciso de factos. Vejamos:

Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), as uniões são já menos 15 815 do que há dez anos e os divórcios mais 9636. Dos casamentos celebrados (47 857 – menos 814 face a 2005) a percentagem de uniões em segundas núpcias aumentou e é já de 20,6 por cento. Em 2006, verificaram-se 23 935 divórcios, mais 1082 do que em 2005: por cada cem casamentos celebrados em Portugal, foram decretados 48 divórcios. A idade média da dissolução das uniões é de 41 anos para os homens e 39 para as mulheres, tendo o casamento a duração média de 14 anos. Janeiro é o mês em que se realizam menos matrimónios e em que mais vínculos nupciais são dissolvidos, por morte ou divórcio. 47 857 casamentos foram celebrados em 2006, em Portugal, menos 814 face ao ano anterior e menos 15 815 do que há dez anos. Dos matrimónios realizados, 20,6 por cento corresponde a segundos casamentos. 23 935 divórcios foram decretados em 2006.

Ooops!

Ok, vejamos: duração média de casamento 14 anos? (Penso que hoje em dia é no máximo metade disso, mas continuemos) Não era isso que dizia nos livros! Branca de Neve, Cinderela? Afinal fomos enganados durante anos a fio! Os livros acabavam com “felizes para sempre” e não felizes durante os próximos 14 anos! Não estava escrito que após os 14 anos de felicidade decrescente, a princesa e o príncipe passarão por batalhas judiciais intermináveis, o rombo no seu orçamento será trágico e passarão a pais solteiros, com filhos a quem deviam uma infância feliz e completa. Como é bom ser criança (em livros, obviamente).
Qual foi o problema? A chave voltou a ter saudades de ser uma chave mestra? A porta percebeu que afinal aquilo não era uma chave mas sim um martelo? O que aconteceu? Não sou psicóloga nem acho que alguém se deva submeter a uma vida de infelicidade ou menos feliz (pelo menos quem não tem filhos), apenas acho que as pessoas perderam a noção dos sentimentos, do que é uma promessa, de tudo o que a palavra amor engloba e acima de tudo perderam a paciência e a capacidade de conversação, compreensão e de compromisso, de meio termo, dar e receber. Perderam a noção do valor das palavras e dos gestos.
Hoje em dia as pessoas têm uma discussão e a opção é fazer as malas e ir embora, ninguém quer ter o trabalho de resolver nada. Obviamente que há coisas que não têm solução mas muitas delas têm, apenas para a maioria das chaves e portas, não valem a pena o esforço. Há tanto peixe no mar, tanta porta, porquê perder tempo com uma que não esteja a funcionar bem, não é? Compra-se uma nova e pronto. E assim se segue em frente, e o ciclo começa novamente.

Nova porta, novo casamento, provavelmente novos descendentes e temos o conceito de família do século XXI que inclui as madrastas, padrastos, meios-irmão e filhos de madrastas e padrastos, mulher/marido nº1, nº2 e por aí adiante. Agora eu pergunto: ok, faz-se isso a primeira vez, é normal mas..fazer a segunda?! A terceira?!?! Casar 10 vezes como se fosse ir ao cinema? Ter filhos, desta, daquela e do outro? Ir tendo filhos com vários parceiros?? Sinceramente mete-me muita impressão mas talvez seja eu que sou muito esquisita não é? Talvez a minha noção de ridículo seja…..ridícula. É provável.
Como diria Darwin, só sobrevive quem se consegue adaptar portanto, continuarei a ir aos casamentos, tentando adivinhar quanto tempo durará desta vez, quantos filhos nascerão DESSA união, como será a segunda mulher, o terceiro marido e quem dirá pior, de quem hoje, diz ser o seu mais que tudo, a pessoa mais maravilhosa do mundo (passa-se de bestial a besta num piscar de olhos..ou em 14 anos, se formos mais precisos).
Afinal não é o sapo que se transforma em príncipe mas sim o príncipe em sapo. Quem terá deixado publicar aquelas histórias? Uma excepção, provavelmente. Os livros para crianças precisam de uma revolução, e acima de tudo, as frases: “aceita X para ser seu marido” terá de ser substituída por “aceita X para ser seu ex-marido num futuro próximo” e “até que a morte os separe” deve ser urgentemente substituída por “quanto tempo dura o teu para sempre”? Seria muito mais justo e definitivamente mais realístico.